Alguns comentários sobre a “síndrome de burnout”

Alguns comentários sobre a “síndrome de burnout”

Por Dr. Leonardo Biscaia – Na medicina ocupacional, há determinados modismos que se sucedem uns aos outros ao longo do tempo. Na década de 1980, a doença ocupacional que recebia destaque frequente nas manchetes dos jornais era a LER (lesões por esforços repetitivos), depois renomeada como LER-DORT (lesões por esforços repetitivos-distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho). Em seguida, veio a PAIR (perda auditiva induzida pelo ruído). Na década de 2000, a ênfase passou para a fibromialgia e, há alguns anos, a “síndrome de burnout” ganhou evidência.


Em programas de televisão e revistas de variedades, é fácil encontrar artigos e matérias abordando essa “síndrome”, cuja prevalência é estimada em inacreditáveis 32% da população, superando até mesmo a hipertensão arterial sistêmica (prevalência de 21,4 a 24,8%) e o diabetes melito tipo 2 (prevalência de 7,5% na população brasileira). Apesar dos números alarmantes, a “síndrome de burnout” não tem um sistema de critérios e parâmetros diagnósticos definidos que permita fazer um levantamento epidemiológico. Os “critérios” diagnósticos mais comuns são:

  • Exaustão emocional: perda da energia para lidar com as demandas emocionais e cognitivas do trabalho
  • Despersonalização ou cinismo: indiferença ou atitudes e comportamentos disfuncionais em relação aos pacientes
  • Sensação diminuída de realização pessoal e efetividade.

De acordo com pesquisas relacionadas à síndrome, ela ocorreria exclusivamente em decorrência de problemas trabalhistas (muitas vezes, em meio a disputas judiciais) e atividades de atendimento ao público, como é o caso de médicos, assistentes sociais e enfermeiros. Os tipos de trabalho que provocariam o burnout apresentariam as seguintes características:

  • Exigências do trabalho: carga horária, metas e prazos implacáveis, pacientes complexos
  • Conflito de papéis e papéis ambíguos
  • Falta de controle e autonomia no trabalho
  • Carência de suporte ou boas relações com superiores e colegas
  • Falta de reciprocidade dos pacientes
  • Falta de habilidade e capacidade para realizar o trabalho
  • Ausência de comprometimento institucional com grupos e pessoas.

Embora a “síndrome” esteja tradicionalmente relacionada a exaustão emocional, despersonalização e percepção diminuída de realização e efetividade, diferentes estudos relacionam-na a outros critérios, como fadiga, cansaço cognitivo, irritabilidade, negligência, abandono do trabalho, perda de energia, depleção, debilidade, perda do idealismo, moral baixa e incapacidade para lidar com problemas. É possível também encontrar, sem muita dificuldade, relatos de insônia, manifestações somáticas (vômitos), trabalho em turnos, entre outros.


Vale notar que não há critérios temporais definidores nem se sabe se a “síndrome de burnout” compreende um contínuo que vai desde “leve” até “severo” ou se é uma situação dicotômica, do tipo “tem” ou “não tem”. Desse modo, diferentemente de qualquer doença médica ou transtorno mental reconhecidos pela comunidade médica e científica, inexistem diagnósticos diferenciais para a “síndrome”.


Como notaram Bianchi et al. (2015), a “síndrome de burnout” foi definida por um questionário, e não o contrário. Transtornos mentais mais comuns, como depressão e ansiedade, são rastreados a partir de questionários específicos (como HAM-D, QIDS-SR e PHQ-9) desenvolvidos depois que as entidades clínicas estavam estabelecidas. No caso da “síndrome de burnout” ocorreu o contrário: criou-se um formulário (o Maslach Burnout Inventory – MBI) para, depois, definir um transtorno mental que se encaixasse nele. O MBI supõe que o “diagnóstico” da “síndrome de burnout” seja feito combinando-se, simultaneamente, a exaustão emocional, a despersonalização e a sensação diminuída de realização pessoal e efetividade. No entanto, o próprio manual do MBI sugere que cada um desses aspectos seja avaliado separadamente, criando uma situação inusitada: uma síndrome diagnosticada a partir da presença isolada dos sintomas cujo conjunto a define.


Christina Maslach, a criadora do burnout, já afirmou claramente que o conceito surgiu a partir de observações empíricas de psicólogos que avaliaram assistentes sociais e profissionais da saúde do ponto de vista psicológico e sociológico, sem empregar conhecimentos médicos e psiquiátricos. Essa informação revela muito sobre a “síndrome de burnout”, pois mostra que ela é a forma de descrever alguns fenômenos psicológicos, e não um transtorno mental ou uma doença particular.


De fato, a literatura psiquiátrica questiona a existência de uma “síndrome de burnout”: ela não está descrita no DSM-5 nem no CID-10, apesar de muitos médicos fazerem referência a ela com o código Z73.0 (“Esgotamento – Estado de exaustão vital”). Por outro lado, as características do burnout sobrepõem-se às do transtorno depressivo maior em termos de etiologia, sintomas, comportamento desenvolvido em resposta às emoções, preditores e resultados ocupacionais. Ambos os distúrbios estão associados a diminuição da performance, absenteísmo e rotatividade. Bianchi et al. (2018) descrevem correlação de 0,68 a 0,73 entre burnout e depressão, indicando que a sobreposição de ambos é, na verdade, a coincidência de fenômenos avaliados sob nomes diferentes. Portanto, convém lembrarmos os critérios diagnósticos para o transtorno depressivo maior dados pelo DSM-5:

A – Cinco ou mais dos seguintes sintomas, presentes durante o mesmo período nas últimas duas semanas; pelo menos um dos sintomas é humor deprimido ou perda do interesse e prazer:

1 – Humor deprimido na maior parte do dia, quase todos os dias

2 – Perda do interesse e prazer em todas ou quase todas as atividades na maior parte do dia, quase todos os dias

3 – Perda ou ganho de peso ou do apetite

4 – Insônia ou hipersonia quase todos os dias

5 – Agitação ou retardo psicomotor quase todos os dias

6 – Fadiga ou perda de energia quase todos os dias

7 – Sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva ou inapropriada quase todos os dias

8 – Capacidade diminuída para pensar ou concentrar-se ou indecisão quase todos os dias

9 – Pensamentos recorrentes de morte e não somente medo de morrer, ideação suicida recorrente sem plano específico, tentativa de suicídio ou plano específico para cometer suicídio.

B – Os sintomas causam sofrimento significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida da pessoa

C – O episódio não é atribuível a efeitos fisiológicos ou a uso de substâncias

D – A ocorrência do episódio depressivo maior não é mais bem explicada por transtorno esquizoafetivo, esquizofrenia, transtorno esquizofreniforme, transtorno delirante etc.

E – Nunca houve um episódio maníaco ou hipomaníaco.

O cotejo entre as características definidoras da “síndrome de burnout” e os critérios diagnósticos da depressão maior realmente evidencia que a primeira é, na verdade, uma forma disfarçada da segunda. Os critérios 1, 2 e 6 respondem pela “exaustão emocional”; os sintomas 7 e 8 são a forma médica de descrever a sensação de inutilidade ou de perda de eficiência profissional; e o sintoma 2 responde pelo cinismo ou perda de interesse com os pacientes.


Diferentemente da descrição psicológica, a descrição psiquiátrica do fenômeno permite fazer o diagnóstico diferencial e estabelece parâmetros temporais claros, além de baseada em décadas de estudos fisiopatológicos e terapêuticos. É o caso do transtorno depressivo maior, que tem critérios claros e estabelecidos dentro de um sistema diagnóstico orgânico (DSM-5).


O fato de o burnout supostamente ser relacionado ao trabalho não o torna uma entidade clínica específica, mesmo porque a depressão pode ser causada por problemas laborais. Por sua vez, como nota Bianchi et al. (2018), um diagnóstico exclusivamente relacionado ao trabalho é um argumento bastante especioso. Até onde se sabe, inexistem doenças que ocorrem apenas no trabalho, ainda que haja aquelas nas quais o trabalho é um fator etiológico muito importante.


Desse modo, a “síndrome de burnout” não pode tornar-se uma chave mestra para explicar todo e qualquer queixa ou sintoma psíquico de trabalhadores. É preciso não confundir as categorias psicológicas e sociológicas com doenças definidas pela medicina. A tentativa de dar o status de doença a observações e fenômenos sociais ou psíquicos é um grave problema epistemológico. Como bem afirmou o filósofo Guilherme de Ockham, “as entidades não devem ser multiplicadas além da necessidade”.


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