Envelhecer, perdas e aquisições

Envelhecer, perdas e aquisições

Por Dra. Ligia Py A vinculação do envelhecimento à ideia de perda parece estar impregnada na dinâmica das relações sociais que vivemos. No entanto, Jack Messy (1999, p. 18) nos remete à noção de envelhecimento como aquisição, “pelo simples fato de que só perdemos aquilo que possuímos”. O envelhecimento, então, passa a ser visto não mais como uma sucessão interminável de perdas, mas como um processo vivido na tessitura de perdas e aquisições.


O princípio da aquisição no decurso da vida centra-se nos investimentos que fazemos nas pessoas queridas, ou seja, acontece na relação que estabelecemos com o outro. São esses investimentos, carregados das aquisições que obtemos, que configurarão a instância imaginária do ego, o que significa que nós nos moldamos à imagem do outro a quem nos afeiçoamos.


O ser humano passa por um luto quando se vê diante de alguma perda. Freud (1980) trata o luto como um processo psíquico que o indivíduo percorre, com sofrimento, quando perde um objeto de sua afeição e progressivamente se desapega dele. Na elaboração do luto, a pessoa desenvolve uma intensa atividade psíquica de profundo sofrimento.


No envelhecimento, o trabalho de luto se constitui no penoso processo psíquico que o idoso percorre, implicando a necessidade de elaboração do vínculo afetivo com aquilo que ele sente perdido e que a sociedade soberanamente glorifica: o corpo vigoroso, a beleza e as capacidades maximizadas da juventude, o poder e o status proporcionado pelo trabalho. O idoso sente também a perda de pessoas do seu convívio que “começam a morrer em série, uma a uma, indo embora, até chegar a minha vez”, conforme relatou uma senhora frequentadora de um grupo de convivência para pessoas idosas.


A elaboração dessas perdas deve resultar em uma abertura de perspectivas para um redirecionamento dos afetos depositados nesses vínculos que se romperam, para que o idoso venha a se entender com a inexorabilidade das marcas da passagem do tempo.


Em primeiro lugar, essa elaboração confronta o idoso com um corpo “estranho” que, agora envelhecido e ainda envelhecendo, tornou-se diferente, fazendo emergir a necessidade de adequação à sofrida condição ditada pelas limitações das suas capacidades físicas. O confronto segue com novo cenário de atividades e relações, agora diferente da antiga dedicação ao trabalho e marcado pela ausência de pessoas que marcaram um longo convívio de interesse e afeição, mesmo em circunstâncias de contrariedades. Acrescenta-se, ainda, a reflexão constante do indivíduo idoso sobre a sua própria existência, que pode tanto fazê-lo confrontar-se com o final da sua existência como reacender os rearranjos psíquicos que sempre deram conta de lhe assegurarem perspectivas futuras com esperanças renovadas.


O ser humano sofre perdas desde o nascimento, a começar pela perda do “paraíso uterino”. Perdas vividas na infância, na juventude e na maturidade sempre dinamizaram seu campo de possibilidades de aquisições novas, resultando em uma trajetória de elaboração psíquica a partir do que foi perdido. Isso quer dizer que as perdas, apesar de irreversíveis, não significam necessariamente um término, uma vez que sempre porporcionam novas aquisições.


Na peculiaridade da velhice, as aquisições não são coisas novas adentrando a vida do sujeito. Durante todo o processo de desenvolvimento, o interjogo de perdas e ganhos entra na pauta da sua vida. Conforme alerta Messy (1999, p.22): “aquisição não é o reverso da perda, pois a noção de irreversibilidade separa-as. O que é perdido, o é para sempre, nenhuma aquisição substitui a perda”.


O processo psíquico de elaboração do luto é uma experiência singular e pessoal, que varia de acordo com as circunstâncias em que o indivíduo está inserido. Em seus estudos sobre o luto, Doll (2016) chama a atenção para a diversidade e a transitoriedade das condições socioculturais que configuram os cenários em que acontecem o envelhecimento e o luto. As grandes transformações sociais das últimas décadas, aliadas às mudanças acentuadas nas relações interpessoais e familiares e que tendem a uma aceleração cada vez maior, não garantem a permanência das formas de envelhecer e de sentir as perdas nas próximas gerações.


Vale lembrar alguns episódios de experiência pessoal, contados por quem viveu a surpresa de se saber velha e de ficar doente. A partir daí, essas pessoas se põem, com grande contrariedade, em um trabalho de luto pelo corpo e pela saúde perdida. Na dinâmica ilusória do “velho ou doente é o outro, jamais eu”, apresentamos a seguir o relato de pessoas frequentadoras de um grupo de convivência, porta-vozes de experiências singulares:


Eu só vi que estava velha naquele dia que eu fui à médica do posto [de saúde] e uma velha que vinha chegando apressou o passo pra falar comigo e me disse: “A senhora está indo para o grupo dos idosos, e eu tenho que ir pra lá, porque a doutora mandou, mas eu não sei onde é. Que sorte! Eu encontrei a senhora, assim eu vou junto com você. Bem que a doutora disse que era só eu acompanhar um idoso que estava indo pra lá.” Eu fiquei tão passada! Quem era idosa? Eu? Eu, não! Eu não estava indo pro grupo dos idosos, eu nem sabia disso, nem sabia onde era! Eu, não! Fui até bruta com aquela mulher. Ela, coitada, ficou tão sem graça, e eu saí dali fuzilando. Mas aquilo não saía da minha cabeça. Aí, de noite, fui na casa da minha filha ver a novela e contei pra ela. Ela riu que se acabava. Ela ria e eu chorava de me amargar por dentro, porque eu não queria ser velha. Aí é que eu vi que todo mundo sabia que eu já era velha, menos eu. É igual marido traído, o último a saber.

(Mulher, 67 anos, viúva, morando sozinha)


Você sabe, eu não pensei que eu fosse ficar velho e doente. Eu era muito forte, e a gente, quando é moço e está com saúde, nem pensa, nem sabe que pode chegar a ficar velho e que a doença vem também. Pra mim, velho e doente era coisa dos outros, do pobre do João e da dona Mariazinha, coitada! Eu nem pensei que podia acontecer comigo. Ficar velho já é um enguiço. Agora, velho e doente, hum! E o pior é que não morre assim, não! Morrer não é fácil como parece. Eu não sei mais do meu braço e dessa minha perna. Parece que não são meus, que nem é deste meu corpo. Não sei como é ficar assim. Vou ter que aprender [...]. E fico só lembrando da minha saúde, de quando eu era forte, tinha saúde, era moço, até agora há pouco tempo [...], ia tendo idade, mas eu era moço, eu era forte, andava, me mexia, eu era homem pra ser marido dela, tinha força pras coisas.

(Homem, 72 anos, casado, morando com a mulher e uma filha, com sequelas de um acidente vascular cerebral)


Se cada um de nós envelhece seguindo o seu particularíssimo modo de vida, é na nossa história inteira que são engendrados os conteúdos – apavorantes ou tranquilizadores – presentes no envelhecimento. A velhice, assim como a morte, não habita o nosso inconsciente. É algo estranho a nós, e ambas são sempre do outro, como demonstram os relatos das pessoas idosas, plenas de estranheza, apresentados anteriormente.


Hoje, para muitas pessoas envelhecer é, basicamente, perder. É algo estranho ao indivíduo que deseja a eternidade, perpetuando-se em vigor e beleza, atributos poderosos glorificados pelo ambiente social. A pessoa, então, funda o seu desejo em viver muito e prazerosamente, porquanto abomina a incapacidade e a morte, levando-a à dramática recusa do inevitável envelhecer. Nessa conturbada dinâmica psíquica, deve transcorrer o trabalho de luto por aquilo que é perdido na velhice, evocando aquisições que, se jamais reconstituem as perdas, mantêm o sujeito na condição desejante, projetado ao futuro, próximo das suas possibilidades inimagináveis de criação.


Referências bibliográficas

Doll J. Luto e viuvez na velhice. In: Freitas EV, Py L, editoras. Tratado de geriatria e gerontologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2016.

Freud S. Luto e melancolia (1917[1915]). In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. XIV. Rio de Janeiro: Imago; 1980. p. 275-91.

Messy J. A pessoa idosa não existe: uma abordagem psicanalítica da velhice. 2. ed. São Paulo: Aleph; 1999.


Sites

Instituto 4 Estações - Dra. Maria Helena Franco: www.4estacoes.com

Instituto Entrelaços - Dra. Erika Pallotino: www.institutoentrelacos.com

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