O antivacinismo no Brasil: como estamos e o que podemos fazer?

O antivacinismo no Brasil: como estamos e o que podemos fazer?

Por Dra. Isabella Ballalai – De acordo com dados do Ministério da Saúde (MS), sete das oito vacinas obrigatórias na infância tiveram cobertura aquém da meta em 2018. As causas são multifatoriais e incluem questões estruturais, de capacitação profissional, além da abalada confiança da população causada pela desinformação.


Taxas de cobertura vacinal em declínio e o consequente retorno de doenças já eliminadas não só refletem uma amnésia histórica, mas também uma diminuição da fé nas instituições e uma alarmante falta de preocupação com o bem-estar da coletividade.1


 Na era da internet, o crescimento de alguns movimentos incentiva as pessoas a rejeitarem o conselho de um perito ou a segui-lo de maneira seletiva, o que causa nelas excesso de confiança no seu próprio conhecimento amador.1 Descrente, desconfiada e ávida por informação, a população se torna presa fácil de movimentos antivacinistas e de fake news compartilhadas em redes sociais e grupos de WhatsApp, receita para a crescente hesitação de vacinar a si e aos seus.


No Brasil, de acordo com o estudo Wellcome Global Monitor 2018,2 realizado em 140 países com o objetivo de avaliar a percepção sobre questões relacionadas com a ciência em geral e a saúde pública, 97% dos brasileiros acreditam ser importante vacinar as crianças, proporção maior que a média global (92%). No entanto, apenas 80% declarou acreditar na segurança das vacinas, média já não tão superior à mundial, de 79%.


Estudo brasileiro3 avaliou a confiança e a hesitação em vacinar por parte dos brasileiros. Os resultados mostraram uma confiança geral na imunização maior do que aquela depositada em serviços de planejamento familiar, agentes comunitários de saúde e serviços de emergência. Entre os pais de crianças menores de 5 anos, 43,6% relataram alta confiança nas vacinas, 21,3% sentiam-se hesitantes e 7,4% declararam falta de confiança na imunização. Os motivos apontados com mais frequência para a hesitação incluem: confiabilidade (41,4%), eficácia/segurança das vacinas (25,5%) e preocupação com eventos adversos (23,6%). O grupo etário mais jovem (< 25 anos) mostrou-se o mais hesitante, já os maiores de 60 anos foram os mais propensos a aceitar a vacinação. A maior taxa de aceitação ocorreu entre as famílias com grau de escolaridade superior (81,6%), com taxas decrescentes entre aqueles com nível médio (70,6%) e primário (58,6%). No entanto, em termos de hesitação, a resposta pouco variou com a escolaridade (de 62,1 a 65,5% entre os com escolaridade básica e superior, respectivamente).


A recomendação médica tem papel fundamental na adesão das pessoas à vacinação. De acordo com o Wellcome Global Monitor 2018,2 aqueles que indicam médicos e enfermeiros como a principal fonte de informação em saúde acreditam mais na segurança das vacinas (81%) do que os que priorizam as demais fontes (72%), como amigos, familiares, líderes religiosos, curandeiros tradicionais, entre outros. Além disso, o nível de confiança nesses profissionais parece diretamente relacionado com melhor percepção sobre segurança. Dos entrevistados que declararam “confiar muito” nos profissionais, 87% tinham certeza de que as vacinas não são danosas à saúde. Em contrapartida, entre os que se mostraram hesitantes, o índice de confiança nas vacinas foi de 67%.2


Embora, no geral, a confiança nas vacinas mostre-se alta no Brasil e no mundo, a natureza dinâmica, da tendência à hesitação – considerada uma das dez maiores ameaças globais à saúde humana,4 aponta a necessidade de abordagens criativas com base científica para desenvolver comunicações sobre a vacinação, um desafio cada vez maior. Além disso, a facilidade de acesso ao crescente número de publicações desprovidas de evidência científica exige que organizações de busca na internet e em mídias sociais desenvolvam ferramentas capazes de bloquear ou identificar fontes não confiáveis sobre vacinação, tal como ocorre para mensagens de sexo explícito ou violência.


E o que nós, pediatras, podemos fazer? Nosso papel vai além da prescrição de vacinas. Tampouco devemos simplesmente repreender, mas antes ouvir e compreender as preocupações dos pais e dar a eles respostas simples e seguras que demonstrem a importância, os benefícios e a segurança de vacinar seus filhos. Precisamos estar preparados para responder às ansiedades e às dúvidas das famílias. Para isso, muitas vezes, é importante pesquisar a veracidade da informação recebida e dar o suporte necessário para tranquiliza-las.


Como sabemos que a família, ou mesmo nosso paciente, muito provavelmente buscará informações na internet sobre a vacinação, uma estratégia proativa seria recomendar fontes seguras sobre o tema para eles. Listo a seguir alguns sites:


Referências bibliográficas

  1. Reich JA. Calling the shots: why parents reject vaccines. New York: New York University Press; 2016.
  2. Gallup. Wellcome Global Monitor 2018: how does the world feel about science and health? Disponível em: https://wellcome.ac.uk/sites/default/files/wellcome-global-monitor-2018.pdf. Acesso em: 13 jul 2019.
  3. Brown AL, Sperandio M, Turssi CP, Leite RMA, BertonVF, Succi RM et al. Vaccine confidence and hesitancy in Brazil. Cad Saúde Pública. 2018;34(9).
  4. OPAS Brasil. Dez ameaças à saúde que a OMS combaterá em 2019. Disponível em: https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=5848:dez-ameacas-a-saude-que-a-oms-combatera-em-2019&Itemid=875. Acesso em: 13 jul 2019.


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